III
A situação dos direitos humanos da população em situação de rua do centro de São Paulo
5. Reportagens e matérias publicadas pelos veículos de comunicação
O Trecheiro | agosto de 2004
O Estado de S. Paulo | 26 de junho de 2006
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Direitos Humanos | 20/07/2005 | Copyleft
11 MESES DEPOIS
Massacre de moradores de rua em SP segue impune
Entidades defensoras dos direitos humanos promovem ato para cobrar do governo de SP uma resposta para a morte de 7 moradores de rua, assassinados no centro da cidade em 2004. MP recebeu manifestantes e prometeu reforçar investigação.
Bia Barbosa -- Carta Maior
São Paulo - Entidades de direitos humanos e associações de moradores de rua realizaram nesta terça-feira(19) na praça da Sé, no centro de São Paulo, um ato público contra a violência e a impunidade. O objetivo da manifestação foi cobrar da Justiça uma investigação profunda e séria dos casos de chacinas ocorridos recentemente na cidade, entre elas as mortes de sete moradores de rua, assassinados há onze meses ainda não esclarecidos , e de Tereza Rodrigues Francisco e seus fi lhos Eduardo Rodrigues Francisco, de 24 anos, e Fábio Rodrigues Francisco, de 15 anos, no núcleo habitacional do Jardim Portinari em Diadema, no último dia 4 de julho. O ato reuniu centenas de pessoas e foi promovido pela Arquidiocese de São Paulo, Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Centro Santo Dias de Direitos Humanos, Vicariato do Povo de Rua, Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), Movimento Nacional de Direitos Humanos e moradores de bairros atingidos pela violência policial em São Paulo.
"Mais uma vez, nós, da população de rua, estamos decepcionados com a Justiça do Estado de São Paulo e do Brasil. Há onze meses, sete companheiros foram massacrados no centro e não houve Justiça. A população que é jogada de suas casas e que passa pela exclusão da moradia, se encontra sozinha. Estamos aqui pra mostrar que somos organizados e que cobramos Justiça para nossos irmãos e irmãs massacrados", disse Anderson Lopes Miranda, representante dos moradores de rua.
O ato contou com a presença de Flordenice Machado dos Santos, irmã de Cosme Rodrigues Machado, um dos moradores de rua assassinados, e do arcebispo de São Paulo, Cardeal Dom Cláudio Hummes, que cobrou uma mobilização da população contra a impunidade diante da violência policial.
"Não é possível fi car em casa escutando notícias e esperar que as coisas mudem. É preciso ir às praças, fazer manifestações. A impunidade alimenta a violência. Quando não se pune, o crime parece que compensa", disse Dom Cláudio.
"Onze meses depois, não sabemos em que pé estão as investigações. O pior é quando a violência vem de quem deveria dar segurança para o nosso povo. Há bons policiais, mas os maus têm que ser condenados. Precisamos de uma atitude mais fi rme das autoridades para levar à punição de quem exerce violência até hoje. Gostaríamos de ver uma aceleração dos processos. O povo diz que se sente pouco atendido pela Justiça. Quanto mais demorarem as respostas, mais o povo se sente desesperançado", afirma o cardeal.
O grupo Atitude Pela Paz, criado por moradores da zona sul de São Paulo e que levou dezenas de crianças e adolescentes à manifestação, afi rmou que a população da periferia já está acostumada com as chacinas contra a população pobre. "São Paulo não pode ser uma cidade onde há pessoas que não podem morrer e outras que podem morrer que são os pobres porque "estavam aprontando alguma coisa errada". Isso é errado. Queremos justiça pra todos, para ricos e pobres. Vamos ter um ato de um ano de morte dos moradores sem respostas pra isso?", questionou Luiz Carlos dos Santos, coordenador do grupo.
Na visão dos participantes da manifestação e das organizações de direitos humanos que promoveram o ato, o principal responsável pela ausência de respostas no caso do massacre dos moradores de rua é o governo do Estado de São Paulo. Na época dos assassinatos, as autoridades paulistas assumiram a responsabilidade de encontrar os culpados pelos crimes. Cabe à Polícia Civil apresentar os indícios para que, então, o Ministério Público possa oferecer uma ação penal contra os suspeitos. Mas as informações apresentadas até agora não foram sufi cientes. Além disso, uma possível testemunha foi morta e um menino, Diego, que disse ter informações, está desaparecido. Organizações de direitos humanos chegaram a pedir a federalização desses crimes, mas o pedido não foi aceito pelo Poder Judiciário.
"Queria que o governador e o secretário de Segurança Pública estivessem ouvindo isso. São Paulo hoje vive uma situação pior do que a do Iraque. Não temos direito de ir para a rua, para a escola. A polícia manda e desmanda. Estou mostrando a minha cara e posso ser a próxima. Por isso precisamos que esses policiais, que estão usando fardas e são pagos com o dinheiro dos nossos impostos, sejam mandados embora. Eles estão denegrindo os bons policiais. Cadê o [Geraldo] Alckmin e o Saulo [de Castro Abreu Filho] que não vêem isso?", disse Maria de Lurdes Scarpim, moradora do Jardim Pantanal, bairro vizinho ao que foi palco de uma das últimas chacinas de Diadema.
O MP aberto à população
Da Praça da Sé, os manifestantes seguiram em caminhada até o Ministério Público, onde foram recebidos pelo Procurador Geral de Justiça do Estado, Rodrigo César Rebello Pinho. Em princípio, uma comissão seria portadora das reivindicações do movimento, mas o Procurador Geral abriu o auditório nobre do MP para que todos os presentes participassem do debate. As entidades entregaram ao MP um documento onde pediram que seja designada uma equipe especial de promotores para elucidar homicídios coletivos onde haja a suspeita de envolvimento de policiais. O documento também apresenta um inventário de chacinas na periferia de São Paulo, com casos ocorridos em Sapopemba, Parque Novo Mundo, Jardim Pantanal, Favela do Coruja e outros mais antigos, que ainda não tiveram desfecho, como o da Favela Naval e os dos grupos de extermínio em Ribeirão Preto e Guarulhos. A maioria das chacinas aponta para a participação de policiais. Também foi cobrada uma investigação sobre a morte de cinco pessoas, ocorrida no dia 22 de junho, na Favela do Morro do Samba, também em Diadema, numa suposta resistência seguida de morte envolvendo policiais civis.
O tema central da audiência, no entanto, foi a investigação acerca do massacre dos moradores de rua. Conforme explicou o promotor Rodney Claide Bolsoni Elias da Silva, responsável pelo caso junto ao MP, as provas periciais como exames de necrópcia já estão esgotadas. E as provas testemunhais, até o momento, não são fortes. "São testemunhos circunstanciais. As pessoas que sabem das coisas pouco estão dizendo de concreto sobre as mortes e as tentativas de morte. E, sobre o pouco que falam, não conseguimos provas", disse Silva. "A verdade, que muitas vezes está na rua, se não chega ao processo, não existe. E aí as investigações continuam do mesmo jeito. Por isso pedimos aos moradores para nos procurar. Tudo será tratado como sigilo absoluto e temos como dar proteção à testemunha", garantiu o
promotor.
Desde a última quinta-feira (14), o segundo relatório entregue pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) com informações sobre a investigação está nas mãos do Ministério Público. O MP, no entanto, ainda depende de outros dados para tentar concretizar uma prova. Entre eles, estão os nomes dos policiais que compõem o batalhão da Polícia Militar que atua na região da Sé, onde aconteceram os assassinatos. O ofício já foi encaminhado à PM, mas ainda não foi respondido. Um suspeito de envolvimento na morte de um dos moradores de rua é o ex-policial militar Jainer Aurélio Porfírio, vulgo "Jaime". No entanto, o que os promotores têm em mãos ainda é pouco para oferecer ação penal.
"Não há condições ainda de oferecer ações penais, para dar uma resposta provisória para a sociedade que no fi nal não vai resultar em condenação no futuro. Não vamos formular uma acusação que não tenha êxito. Precisamos de apoio e abrir um canal de comunicação para que possamos efetivamente produzir uma prova. Em parceria, trabalharemos melhor", acredita Rodrigo Pinho. "Infelizmente não temos indiciados até agora. Mas é difícil trabalhar com o silêncio e a falta de colaboração de outros setores. Precisamos de apoio para conseguir informação. Este caso também nos afl ige. Para nós, é uma sensação de frustração muito grande", admitiu o Procurador Geral, que fez questão de reafi rmar o compromisso do Ministério Público e do Tribunal de Júri para punir os responsáveis.
O Ministério Público já pediu o desarquivamento de inquéritos de outras mortes no centro de São Paulo, na tentativa de estabelecer alguma conexão entre os crimes. Há outras pistas possíveis, como informações que podem relacionar o massacre com o tráfi co de drogas.
"Localizamos pessoas que deixaram claro a conexão com o crime organizado e o tráfi co de drogas. Os motoristas de táxi da Sé sabem disso, mas há uma lei do silêncio grande. E há coisas que não foram investigadas. Não foi preservado nenhum cenário do crime; os policiais militares são protegidos por corporativismo que esconde os fatos; há uma fi ta para ser ampliada nas mãos do Ministério Público desde o início; podemos chamar os seguranças das empresas do centro para serem ouvidos. As informações que existem já são muito duras para mostrar que temos que desmanchar esta máfi a. Portanto, não podemos dizer que é por que o povo da rua não fala que não descobrem os culpados", rebateu o Padre Júlio
Lancelotti, da Pastoral do Povo da Rua.
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Direitos Humanos | 05/10/2005 | Copyleft
MORADOR DE RUA
Serra quer mudar albergue referência da gestão Marta
Oficina Boracea, que atende hoje 490 pessoas com abrigo, cursos profi ssionalizantes, acesso à cultura e vivências que visam a recuperação da auto-estima, será transformada num centro de qualifi cação profissional e de moradias provisórias parcialmente pagas.
Bia Barbosa -- Carta Maior
São Paulo - Em junho de 2003, a Prefeitura de São Paulo inaugurou um dos principais projetos da gestão Marta Suplicy, transformando um galpão de cerca de 17 mil metros quadrados num centro de referência de atendimento e de estudos de políticas públicas para os moradores de rua. A Ofi cina Boracea, implantada na antiga garagem da Secretaria de Implementação de Subprefeituras, na Barra Funda (Zona Oeste da cidade), foi premiada no ano passado como um dos melhores programas de gestão pública do país. Atende, hoje, 490 pessoas. São 340 vagas fi xas no albergue e mais 150 para pernoite. Nesta terça-feira (4), o secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, anunciou que pretende desativar este tipo de atendimento no local.
Nos próximos oito meses, a unidade deve passar a funcionar como uma central de formação e capacitação - no mês que vem deve ser inaugurada ali uma fábrica de computadores reciclados e como moradia provisória para as pessoas em situação de rua. A moradia provisória é uma fase intermediária da chamada emancipação dos moradores de rua. Nesses locais, o morador paga por serviços como água, luz e alimentação, enquanto a prefeitura e as organizações conveniadas arcam com o restante. "Pelo menos 20% da população albergada tem trabalho, mesmo que informal. O ideal é que essas pessoas migrem para um outro tipo de atendimento", explicou Pesaro.
É possível passar um ano (renovável por mais um ano) neste tipo de equipamento. A prefeitura garantiu que, em 2005, não vai colocar ninguém pra fora dos serviços por questão de tempo. Cerca de 300 moradias provisórias serão criadas no local. Quem usa a unidade como albergue e que, portanto, não tem fonte de renda capaz de ser usada para bancar os custos das moradias provisórias terá que ser remanejado para equipamentos próximos e menores, cujas vagas, se não existirem, deverão ser criadas pela gestão Serra.
A justificativa para desativar o Boracea é a de que toda a rede municipal de atendimento trabalhará a partir de agora com equipamentos pequenos, onde os moradores de rua possam estabelecer uma relação mais pessoal com os agentes públicos. A Secretaria de Assistência Social já pediu a divisão do galpão do Boracea em espaços menores.
"Este equipamento representa a antipolítica que queremos. É enorme, tem um custo altíssimo. Não queremos um albergue para 500 pessoas identifi cadas de forma distante. Queremos o oposto disso. O Boracea é uma espécie de internato. Tem tudo lá. A pessoa passa o dia inteiro lá dentro, quando deveria sair pra procurar emprego, ir às praças...", acredita o secretário.
Este modelo de "internato", classifi cado por Pesaro, é, na verdade, o grande diferencial da Oficina Boracea. Ali dentro, além das vagas do albergue, funciona um abrigo para famílias e outro para cerca de 70 idosos, um restaurante-escola que serve 3 mil refeições por dia, um telecentro, uma cinemateca e uma sala de leitura. Para os catadores, que representam cerca de 20% da população de rua, o projeto oferece garagem para as carroças e uma central de materiais recicláveis. Há ainda um canil e um veterinário para os amigos caninos dos moradores de rua. Normalmente, carrinhos de coleta e cachorros são proibidos nos albergues.
A central de cursos profi ssionalizantes que a gestão Serra pretende criar no Boracea já existe de alguma forma. Ali, os moradores de rua são incluídos nos programas de geração de trabalho e renda da prefeitura, participando de ofi cinas de qualifi cação. Ao todo, são sete os cursos oferecidos atualmente. Entre eles, restauração de móveis, jardinagem, pintura, construção civil e corte e costura. A oficina também abriga uma lavanderia industrial, usada ao mesmo tempo como ofi cina de trabalho, que lava toda a roupa dos
albergues e abrigos da cidade.
A iniciativa pioneira de disponibilizar, no mesmo local, o albergue e a possibilidade de inclusão social funciona dentro do conceito de cidadania plena. "Isso signifi ca trabalhar o indivíduo como pessoa, a sua autonomia e independência, capacitá-lo com cursos profi ssionalizantes, dar uma assistência digna. Dessa forma, o projeto terá um trabalho conjunto não com assistencialismo, mas um trabalho que visa levar o morador de rua à condição de um cidadão pleno, pois ele passa a ter direitos e deveres. É essa a função
da Assistência Social", declarou a então diretora da Ofi cina Boracea, Lindamar Saba Silva, na ocasião da inauguração do projeto.
Por isso, além do atendimento e das ofi cinas profi ssionalizantes, são oferecidas no local vivências sócio-culturais, que estimulam o exercício da solidariedade, da autonomia e a reestruturação da auto-estima central para quem enfrenta cotidianamente situações degradantes nas ruas da maior cidade do país. Para viabilizar o projeto, a Secretaria Municipal de Assistência Social contou na época com parceiros como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, a PUC-SP, a Universidade Mackenzie e o fórum da população em situação de rua. Sua construção custou, segundo a Prefeitura de São Paulo, R$ 3,945
milhões, dos quais a iniciativa privada contribuiu com R$ 276 mil. A manutenção tem custos mensais estimados em R$ 300 mil.
"São Paulo Protege"
O anúncio sobre a mudança na Ofi cina Boracea foi feito no bojo do lançamento do programa "São Paulo protege pessoas em situação de rua", apresentado nesta terça-feira (4) à imprensa. A reestruturação da rede prevê uma descentralização dos serviços, com a distribuição dos albergues em diferentes bairros da cidade. Atualmente, 75% do atendimento está concentrado nas regiões da Sé e da Mooca. Nas metas da prefeitura para os próximos oito meses está a implantação de 10 albergues com capacidade para até 100 pessoas, prioritariamente em bairros como Santana, Lapa, Santo Amaro, Aricanduva, Jabaquara, Pinheiros e Vila Mariana. Nesta quarta-feira, dois espaços foram inaugurados. Juntos, os albergues Espaço Luz e Portal do Futuro têm capacidade de atendimento para 410 pessoas em situação de rua.
O secretário Floriano Pesaro também informou que vai desativar os quatro albergues da capital que funcionam embaixo de viadutos. Ao todo, esses abrigos tem capacidade para 1.110 pessoas.
Folha de S. Paulo | 23 de setembro de 2005
Folha de S. Paulo | 24 de setembro de 2005
Folha de S. Paulo | 19 de outubro de 2005
Folha de S. Paulo | 30 de novembro de 2005
cmi na rua 18 | www.midiaindependente.org
Baixe aqui o pdf:
https://centrovivo.sarava.org/imagem/capituloIII/reportagem-capituloIII/cminarua_cap3.pdf
Folha de S. Paulo | 30 de novembro de 2005
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https://centrovivo.sarava.org/imagem/capituloIII/reportagem-capituloIII/a3_moradia_provisoria.pdf
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HABITAÇÃO Moradias provisórias se rebelam em São Paulo
Por Graziela Kunsch - CMI Brasil 06/04/2006
"Chega de esmolas queremos futuro!" Assim começa a carta escrita por Sebastião Nicomedes, usuário do programa de moradias provisórias, que vive na moradia da Rua Mercúrio, 518, centro de São Paulo. Não se sabe como, mas sua carta acabou circulando pelas 11 moradias provisórias espalhadas pela cidade e teve adesão de muitos moradores e moradoras, que pretendem se organizar para exigir uma continuidade no programa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS).
O programa de moradias provisórias teve início em 2003 e funciona da seguinte forma: moradores de rua ou de albergues fazem entrevistas com a SMADS e, se demonstram ter condições de levantar renda, passam a habitar uma moradia alugada pela prefeitura no prazo de seis meses, renováveis por mais seis meses, pagando uma taxa de condomínio que varia entre R$25 e R$35. Antes de ser uma modalidade da prefeitura, há mais de dez anos a ONG Organização de Auxílio Fraterno (OAF) já alugava casas e chamava a população de rua para habitá-las, mas essas moradias eram chamadas "repúblicas" ou "moradias comunitárias". Hoje a OAF, em parceria com a SMADS, mantém 5 casas, sendo que cada casa abriga 10 pessoas e uma cozinha comunitária equipada com fogão, geladeira, estantes e mesas. Entre essas
casas está um centro comunitário, que funciona como área de sociabilidade e lazer para os moradores e as moradoras.
Agora muitos contratos estão chegando ao fi m e os usuários das diferentes moradias provisórias estão revoltados com a possibilidade de retornarem para albergues ou para a rua. Nos albergues eles nao têm a liberdade de entrar e sair a hora que quiserem, de tomar banho quando quiserem, de estar na moradia ao longo do dia (nos albergues as pessoas só podem permanecer durante a noite). Existia uma reinvindicação para o prazo de 6-12 meses se estender para 18 meses, mas "o problema real não é se são 12 ou 18 meses, é uma moradia provisória. A questão é que acaba não havendo uma continuidade. Os moradores reivindicam Bolsa Aluguel, moradia social. Da Secretaria de Assistência Social precisa passar para a de Habitação", explica Regina Maria Manoel, coordenadora geral da OAF.
Moradia da Rua Mercúrio: "Ninguém vai assinar desligamento nenhum"
A moradia provisória da Rua Mercúrio, 518, abriga 5 quartos, 5 banheiros com 5 chuveiros, duas salas de TV, uma cozinha comunitária e 20 moradores. Edinando Araújo da Silva, 29, está há um ano na moradia e não aceita voltar para um albergue: "Nos albergues há regras para tudo, fi las para tudo. Aqui eu tenho mais liberdade. Posso entrar e sair a hora que eu quero, posso trabalhar à noite, posso estudar mais tranquilamente". Edinaldo veio de Pernambuco e está há oito anos em São Paulo, lutando por uma moradia. Já morou no albergue Portal da Esperança, em casas ocupadas e até mesmo no edifício São Vito, por dois anos, pagando aluguel. Quando este prédio foi desapropriado e desocupado Edinaldo estava viajando e por isso não foi cadastrado em nenhum programa habitacional da prefeitura e perdeu todos os seus pertences (móveis, roupas e utensílios domésticos). Agora, fazendo côro com seus companheiros da Rua Mercúrio, ele afi rma que "se as autoridades não tomarem
uma providência vamos precisar ocupar e dominar a casa".
Edson Porfírio da Silva, 52, também completou seus 12 meses na moradia provisória e está disposto a resistir e lutar pelo seu direito a uma moradia defi nitiva. Ele está há 25 dias desempregado, após ter sido cortado da Frente de Trabalho da prefeitura. O contrato da Frente era de nove meses, mas ele e outros trabalhadores foram cortados antes de completarem cinco meses de serviço. Antes ele tinha uma banquinha de bijuterias, mas teve sua mercadoria apreendida duas vezes pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e passou a entregar panfl etos, ganhando R$ 15 por dia. Pela Frente de Trabalho ele fazia a manutenção do Balneário Cambuci, recebendo R$ 336 por mês e se queixa do curso "profi ssionalizante" a que foram submetidos: "Era um curso de faxineiro, por 10 dias, não tirei proveito nenhum desse curso". Edson já morou nas ruas e considera o retorno ao albergue "uma regressão". "Nós precisamos ser reintegrados na sociedade".
Pedro Rocha, mais conhecido como Índio, tem origem em uma aldeia humaitá, da cidade de Bacia de Água Branca e está há três anos em São Paulo, onde sobrevive vendendo artesanato. Ele ainda tem direito a sete meses na moradia da Rua Mercúrio e pretende voltar para a aldeia, mas acredita que a luta pela continuidade do programa é "uma luta coletiva, de todos". "Se não me engano, a última política habitacional que tinha uma coerência foi da Erundina, que fazia [casas] por mutirão. O que vejo aí, o prefeito, o governador, todo mundo se esquiva. Constróem [casas pela] CDHU, que são caríssimas, que não interessam ao morador de rua, fi cam tirando moradores de rua, tentando colocar em albergue, tentando mandar embora, que é uma forma de exportar a pobreza". Ao comparar a moradia provisória com o albergue, Índio fala do espaço: "aqui você pode se organizar, principalmente para mim, que escrevo, e aqui posso escrever a qualquer hora". Índio está escrevendo um livro infantil chamado "Quinha, a macaquinha".
Autor da carta que vem mobilizando as 11 moradias provisórias de São Paulo, Sebastião Nicomedes explica que antes o programa previa "promoção de cidadania e estímulo à conquista de autonomia". Mas na terça-feira, dia 4 de abril, em assembléia com os moradores, a técnica da SAS Tiradentes comunicou que aqueles que já completaram 12 meses na moradia provisória precisam deixar o local, porque "a roda tem que continuar rodando". "Ela falou que nós precisamos sair, para entrarem outras pessoas que estão no albergue, então nós vamos para o albergue e a roda vai rodando", explica Sebastião. Mas "ninguém aqui está com condições psicológicas e pessoais de voltar para um albergue, não se enquadra mais com o perfi l de um albergado. Daí o motivo da resistência de todos nós. Seria desconstruir tudo isso. A gente tem roupas, tem sapatos, tem emprego, tem coisa que a gente conquistou e vai perder tudo isso se voltar pro albergue". Os armários dos albergues têm aproximadamente 50 x 30 cm e têm limite de peso. Além disso, Sebastião conta que no albergue eram tratados como crianças, enquanto na moradia provisória são eles quem gerenciam a casa, que se responsabilizam pela limpeza e pela alimentação. "No albergue tudo o que a gente aprendeu, desaprende".
entrevista em vídeo com Edinando Araújo da Silva: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350449.shtml
entrevista em vídeo com Edson Porfírio da Silva:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350451.shtml
entrevista em vídeo com Pedro Rocha:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350463.shtml
entrevista em vídeo com Sebastião Nicomedes:
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/04/350488.shtml
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O Trecheiro | abril e maio de 2006
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TRABALHO Extinto programa que criou 3.500 vagas para população carente
Por CMI Brasil 18/04/2006
Neste fi nal de semana, a Secretaria Municipal do Trabalho de São Paulo anunciou na grande imprensa o fi m do programa Operação Trabalho, que desde 2001 empregava pessoas de baixa renda (renda familiar de até meio salário mínimo), de baixa escolaridade, em situação de rua e/ou egressos do sistema prisional, entre outros. No fi nal de 2005 foram abertas
1.500 vagas nas subprefeituras, com bolsa mensal de R$ 363,45 por seis horas diárias de serviço. Em janeiro deste ano mais 2.000 pessoas foram contratadas, mas apenas 24 seguem trabalhando e não terão suas bolsas renovadas.
Carlos Ramos, do Conselho de Monitoramento da População em Situação de Rua, reclama que não foram nem consultados nem notifi cados sobre esta decisão da Secretaria. Carlos Henrique, também membro do Conselho, conta que o secretário do Trabalho Gilmar Viana falou que a população em situação de rua "não é a minha clientela". Até mesmo o secretário de Assistência Social, Floriano Pesaro, considera que houve discriminação à população em situação de rua.
Na manhã de hoje, dia 17, foi criado um grupo de trabalho para conversar com Gilmar Viana que, entre outros esclarecimentos, quer entender para onde irão os R$ 6 milhões que estavam destinados ao programa. Vale ressaltar que muitos usuários do Operação Trabalho tinham voltado a estudar e haviam deixado os albergues para morar em pensões, onde têm privacidade.
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O Trecheiro | abril e maio de 2006